Pinaúna Editora

Madonna: gênio da desobediência

Deuses são amigos do herói, se compadecem do santo; só ao gênio, porém, é que verdadeiramente amam

Fernando Pessoa

Marlon Marcos. Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

*Texto publicado originalmente na revista eletrônica Flor de Dendê

Escrever sobre Madonna é transdizer o individual, muitas vezes, o individualismo. É seguir o caminho do mercado, os desalinhos do capitalismo que rege as nossas vidas.  A maior estrela pop da indústria cultural da música de todos os tempos é um universo de contradições costurando a sua genialidade. É fluxo de uma ordem mercadológica, mas é refluxo também. Combateu a sua própria invisibilidade cheia de frases feitas, trouxe ideias e cometeu erros consigo, contra os negros, os LGBTs e até contra as mulheres. Mas nos lotou de acertos que a enriqueceram e nos fizeram dançar, pensar e mais que tudo, sentir questões nevrálgicas da nossa dor como humanidades.

Ela nos funciona para além da noção de acontecimento. Um contínuo fenômeno renovado e renovando olhares novos e antigos. Uma escola de estrelas que supera as críticas vãs que combateram e combatem as suas receitas. Ela vinga porque se pensou e se projetou para além dela mesma. Uma mulher ziguezague se debelando contra preconceitos e fundamentos patriarcais, movida por suas contradições: tornar-se eterna aquecendo um sistema que sobrevive dos descartes das mercadorias na rapidez dos momentos. Consumismo alentado por um ser de carne e osso e menstruação, pondo na centralidade da economia os desajustes humanitários que nos condenam à extinção.

Falar de Madonna é destacar sua arte. Arte sim. Como Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat. Michael Jackson. Frida Kahlo. Marilyn Monroe. Pelé. O talento perfazendo caminhos idiossincráticos lidos pelos exageros dos definidores de arte e reguladores das personalidades que o espelho social constrói. Madonna não se deixou ser figuração em um mundo todo voltado contra o seu lugar de origem, sua condição de fêmea, sua ambição de gente que se quer brilhando, sem esmigalhar os seus (des) semelhantes.

Há em Madonna a posse do fruto do conhecimento. Uma trilha de desobediência a si e aos outros. Uma territorialização da inteligência e da vocação para a poesia. Da vida. Escrita. Cantada. Dançada. Mimetizada. O silêncio.

Contudo, ela é barulho mesmo. Muito. Ecos e ecos de um grito que não cessa. Baterias como elemento primordial daquilo que ela sonhou e realizou.  Como tudo envelhece, ela ainda permanece sendo escola para outros e outras com mais talento vocal e menos compreensão do campo artístico pop onde querem atuar. Ela ensina ao longo de 40 anos de carreira. Acesa em centelhas que ela extraiu da sua garra e do desejo em fazer estrelato ao meio da indústria machista da música.

Madonna nunca se quis heroína, tampouco ansiou por uma santidade cristã, sua trajetória a consagra como um gênio que se espraia, se fragmenta, se cola em múltiplas perspectivas ontológicas que esvaziam o obscurantismo classificatório das culturas e das artes. Um ato contínuo de performatividades, guiadas por uma inteligência profunda e pela força de existir como Madonna no mundo. Sagrando rupturas, se impondo como uma mortal que recebe o amor dos deuses. De um deus que escolhe e analisa para além de Fernando Pessoa, outro escolhido por este mesmo deus.

Marlon Marcos é poeta e antropólogo

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