Pinaúna Editora

Das promessas que me fiz, mas nunca vou cumpri-las

Marlon Marcos. Foto: Divulgação

“E onde quer que eu esteja,

Eu não estou”

Sérgio Sampaio

Impossível manter a ternura pelo país em que nasci. Mas, para muito além de qualquer possibilidade, o mais difícil é se manter calado e afastado de qualquer atividade contra todo mal que nos assola.

Eu preciso me desfazer do meu autorretrato em sépia, da minha antiguidade romântica percorrendo os descaminhos que encontrei em minha vida e seguir, com ou sem luz, para os lugares que traduzem o que eu sou para mim mesmo. Sempre me tateei iludido de mim. Sempre me fui permissivo à violência alheia e ao descuido infindo, deseducativo, sabotador do encanto que me perfila como ser humano.

Doer na existência me fez, às vezes, não perceber os privilégios sociais que carrego e que facilitaram a semeadura da esperança e da guiança de me tornar o homem que escreve estas palavras. No centro de todo cansaço, abarrotado desta solidão que me acompanha desde a infância, sentindo o sol na cara e a chuva molhando meus pés.

O agora, hoje, esse instante é temporal e secura, o Brasil sem sentido de qualquer continuidade. A terra da riqueza, beleza, natureza abundante, povo acolhedor, é a imagem civilizada e inepta de um genocida. O Brasil é o lugar da perversidade.

Faço um rasgo simbólico. Acendo fogueiras. Conclamo o que não vejo, mas existe no mais profundo de mim e me faz reviver. Renasço para incrementar o rasgo e nada haverá contra a navalha nas mãos dos que ainda dão dignidade ao termo brasileiro, brasileira. Uma fila imensa de milhões aguardando vacina. Uma multidão herdeira dos séculos de abandono, violação, empobrecimento, ganância promovida pelo que se chama de elite. A elite em sua doente aporofobia e demente exclusão dos que, pelo trabalho, sustentam este país.

Quero me prometer que não falarei aqui da nossa cultura no centro popular da grande criatividade. Nem das artes, nem das canções que nos deram um Gonzaguinha. Não quero a tristeza inspiração da poesia de Cecília Meireles. Não quero o violão de Guinga e nem o canto de Mônica Salmaso. Quero a força da minha raiva para rasgar a cara da maldade que tem nos matado. Só referências a Glauber Rocha e a Grande Otelo.

Quero um pouco da mulher Santa Dulce na determinação de Carlos Marighella e a alma poética de Torquato Neto e Sérgio Sampaio extirpando a feiura da frente, dentro e nos quintais da nossa casa. Para insistir em beleza, a plasticidade vívida da mineira Maria Auxiliadora. Obá em seu cavalo e os espíritos das florestas nos vingando de tanta atrocidade.

Quero a largura e a estreiteza das ruas. O povo caminhando pelo protesto. Caminhando em barulho. Na velocidade exata que soterra os opressores. Quero a altivez de outro 22, bem diferente ao do século passado. Popular e Insurgente como têm que ser os dias com os quais mais sonhamos.

Eu estou aqui sem estar e cegando o canto da sereia, emudecendo os olhos dos abutres. Todo ao avesso como se finitude bastasse. Desenhando na camisa: “ A vida é amiga da arte/ É a parte que o sol me ensinou”. Jurando mentiras e fazendo promessas que nunca cumprirei enquanto houver o desamor que não me deixa ser e nem conviver num lugar com os outros que lutam para um coletivo brasileiro melhor.

Marlon Marcos é poeta e antropólogo

 

3 comentários em “Das promessas que me fiz, mas nunca vou cumpri-las”

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